Eu estou de volta à Buenos Aires. Pela terceira vez no prazo de um ano. Realmente eu tenho gasto algum tempo viajando pela Argentina.

Há quase dez anos eu pisei aqui pela primeira vez. Carregando uma bagagem de rodinhas e um cronograma de um congresso de design embaixo do braço. Eu terminei por passar mais tempo perambulando pela cidade do que propriamente na sala de aula. Era minha primeira vez fora do Brasil e um presságio convincente sobre o que se tornaria prioridade nos anos que sucederam aquela viagem.

Desde então, uma escala portenha ou uma rápida passagem durante alguns dias por aqui nunca se tornou um fardo. Eu aprendi a gostar de Buenos Aires.

Eu sei, muitos não compartilham desse gosto. Eu mesmo levei algum tempo. Assim como lugares como São Paulo ou Nova Delhi – esse último num grau muito mais elevado -, as imperfeições de grandes cidades se sobressaem e camuflam o que poderia ser um bom lugar para se passar um tempo. A medida que ondas de violência invadem o noticiário e o trânsito caótico tornasse fator predominante na paisagem, é fácil entender porque muitos portenhos, na primeira oportunidade, correm para a costa uruguaia ou vão a Patagônia recarregar as baterias.

No início do século passado, quando Buenos Aires era a capital de um dos dez países mais ricos do mundo, a cidade era conhecida pela sua mistura suntuosa do charme do Velho Mundo, alma latinoamericana, afluência europeia e do tango sob ruas arborizadas. É notável que uma cidade moderna, coração pulsante de uma país, ainda tenha essa capacidade de me levar de volta à um tempo que nunca conheci.

No caminho de várias ditaduras militares e crises econômicas – para não mencionar o início da modernidade onde o Mc Donalds tenta fazer frente às hamburguesas de rua – é impressionante que mesmo uma sombra da cidade antiga ainda permanece.

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Pra mim, cerveja, chorípan e futebol são boas definições – e ótimas razões – sobre o que eu gosto de verdade nessa cidade. São clássicos, assim como as jarras de pinguim e o “asado”, que estão enraizados na beleza selvagem da cidade e fazem parte do tecido da vida argentina. Em La Boca, por exemplo, qualquer quadra com bola rolando, junto ao cheiro de carne na grelha, ganha atmosfera de um super clássico. O caos da Florida, as buzinas da 9 de Julio e o ritmo frenético dos workaholic eu finjo que não noto. Estragaria o plano de fundo.

Entretanto, ainda que eu goste das coisas citadas acima, ao meu ver Buenos Aires paira sobre uma névoa de melancolia. Existe uma estranha e bonita sensação de tristeza, como em um entardecer ao final de longas férias ou um amor mal resolvido que ficou pelo caminho. Eu noto isso na arquitetura, ouço no tango, sinto no ar. Um aspecto agridoce, às escuras, singular.

Uma qualidade triste, uma trilha sonora de fundo em ritmo lento encantador que contrasta com as ruas lotadas e aceleradas. Em muitos aspectos, é uma cidade de fantasmas, de memórias e onde poderiam estar centenas de escritores ocultos em mesas de cafés distribuídas pelas calçadas.

Talvez eu seja sensível e propenso a essas peculiaridades. Acabamos por ser facilmente influenciados por coisas e situações familiares e tendenciosas ao nossos gostos. E Buenos Aires consegue resgatar diversas das minhas características mais íntimas. O lugar perfeito para, em um processo narrativo a cada passo, revelar as claras o que eu considero diversão e vejo como inspiração. Como ao final de uma noite agradável, onde você sabe que nunca mais verá aquela garota que acabara de conhecer e por quem você se apaixonou por algumas horas. Doce e amarga, saudosa e contente, melancólica e penetrante.