Pra variar, o trem está atrasado. Já passou da meia noite e mesmo assim a estação ferroviária de Jaipur está lotada. Por doze horas, nossa casa será uma cama em um vagão cheio da terceira classe que vem de Nova Delhi.

Cansado e querendo “ferrar no sono”, eu expulso em bom e velho português a coreana/chinesa/japonesa que resolveu pegar o meu lugar. Não há espaço para minha mochila no chão e acabo, desconfortavelmente, dormindo abraçado a ela.

São quase vinte estações que me separam de Jaisalmer, meu destino por alguns dias. A cada parada, parece que uma tropa de choque ou escola de samba resolve entrar no vagão. Se existe alguma coisa que você vai notar logo de cara quando estiver viajando pela Índia é que a falta de noção e do chamado “semancol” são levados a outro nível. Uma linha tênue e facilmente ultrapassada separa você do seu colega indiano mais próximo. Eu me pergunto o que passa na cabeça deles para acharem que está tudo bem em conversar em voz alta ou colocar uma música bacana no seu celular às quatro horas da manhã. Nesses casos, aquele lance de relativismo cultural é chutado pro alto e belas palavras em português – aquelas que minha mãe não gostaria de saber que andei falando por aí – ganham a vez.
Quando desperto já é dia. Estamos perto de Pokaran, cidadela à 130 quilômetros de Jaisalmer. Nos anos noventa essa pequena vila virou notícia pelo globo. Ali, nas areias do deserto, a Índia detonou 5 artefatos nucleares e entrou para o célebre pequeno grupo de nações possuidoras de bombas atômicas. Num país onde muita, muita gente passa fome e não tem acesso a rede elétrica, colocar medo nos paquistaneses parece ser prioridade.

Depois de muita areia, vegetação árida e poucas pessoas, a visão da fortaleza levantada em meio ao deserto indica que chegamos. Uma silhueta dourada recortada no topo de uma colina rochosa em meio ao nada. Se o Tintim resolvesse dar as caras, fugindo montado em um elefante enfurecido, não seria de todo estranho.

Comparada às de Delhi, Agra ou Jaipur, a estação é bastante pequena e amigável. Como aprendi na marra, saio da estação armado de cara feia e falso mau humor para enfrentar a dura batalha que é fazer um tuc-tuc nos levar a guest house reservada sem maiores problemas. Quando me refiro a problemas, quero dizer que existe uma boa chance do seu motorista topar te levar sem fazer a mínima ideia de onde você quer chegar. Isso poderá lhe custar alguma passada em agências turísticas oferecendo passeios, um tour por outros “ótimos” hotéis (sob os quais o piloto ganhará uma comissão caso você decida ficar) ou uma série de paradas em meio a estrada para consultar qualquer um que estiver passando numa abordagem próxima no estilo “mostra pra ele o nome do seu hotel; você sabe aonde fica?”.
Jaisalmer, a Cidade Dourada e porta de entrada para o Deserto de Thar, se camufla à paisagem ao redor já que é praticamente construída à base de arenito. Seu apelido é devido à cor de mel das pedras. Ela representa, para muitos, a essência do Rajastão, ainda que tomada de assalto pelas mazelas do turismo e cobrindo toda e qualquer fachada centenária com dizeres “recomendado pelo Lonely Planet”. Sim, todos nós temos o mesmo guia e isso meio que arruína toda a explorar o fim da terra, bombardeando cada canto com sinalizações em inglês e nos lembrando que milhões estiveram aqui antes. Nós fazemos parte disso e merecemos parte da culpa.

Muito tempo atrás esse lugar se estabeleceu, cresceu e prosperou junto a seus mercadores como um entreposto na rota comercial que conectava a Índia ao Afeganistão e à Ásia Central. Os primeiros governantes enriqueceram ao saquear pedras preciosas, seda e ópio das caravanas. Os havelis, mansões altamente adornadas, são testemunhos das riquezas acumuladas pelas volumosas taxas cobradas sobre aqueles que utilizavam a rota pelo deserto. Quando o transporte marítimo passou a ganhar força e a divisão de terra entre a Índia e o Paquistão resultou no fechamento das estradas, a cidade empobreceu e decretou sua decadência comercial.

Hoje Jaisalmer vive basicamente do turismo, oferecendo como carro chefe o safári de camelo pelo deserto. Uma base militar estratégica nos embates com os vizinhos muçulmanos completa o status do lugar. No conflito de 99, muitas tropas se mobilizaram e se deslocaram para cá.

 

Em tempos medievais, toda a população de Jaisalmer vivia dentro do forte.

Mesmo agora, dizem que mais de 35 mil pessoas moram ali, o que o torna, aparentemente, o único forte residencial da Índia. Um conglomerado de palácios, mansões, templos, mercados, bazares, quiosques, pousadas e casas comuns conectadas por um labirinto interminável de minúsculas ruelas e becos.

Eu decido ficar fora do forte. Fui aconselhado a fazer isso já que na cidade amuralhada são frequentes os problemas elétricos e sem mais nem menos cortam a luz enquanto você está todo ensaboado debaixo do chuveiro. Se lembrasse o nome do blog onde li isso, eu ficaria satisfeito em contar que do lado de fora da muralha isso também acontece. E várias vezes. O crescimento desenfreado e desordenado de uma cidade em pleno deserto cobra os seus custos.

Ainda que o forte seja o ponto principal e uma espécie de organismo vivo onde muito de Jaisalmer acontece, a cidade que extrapolou as muralhas e margeia a colina é relativamente tranquila e oferece um respiro à quem, por dias, está precisando. Diferente de tantos outros lugares, ali acaba sendo menos hostil aos turistas. Ninguém parece estar disposto a vender a própria mãe (ou todos já venderam, vai saber) por algumas rúpias. Se vocês souber esperar, em algum momento vai encontrar um pouco de silêncio e paz.

Não muito longe do forte está o Gadisar Lake, lago artificial e o reservatório de água da cidade. Em torno do lago uma série de templos hindus se mescla à vendedores ambulantes e seus mostruários espalhados pela calçada. A história narra que os arcos de acesso ao lago haviam sido construídos por uma famosa prostituta local. Sem autorização do marajá para construir, numa desatenção do mandatário ela colocou a estrutura acima e em seu topo um pequeno templo dedicado a Krishna para garantir que ninguém pudesse mandar destruí-lo. Apesar da bela história, o lago com seus bagres gigantes não pode ser descrito como um local livre de descartes como lixo e tantas outras coisas.

A cidade possui um grande rebanho morando nas estreitas ruas, estercando por todos os lugares. É surreal a forma como as vacas parecem cães domesticados. Coçam a orelha com a pata, param na sua frente esperando um bom pedaço da sua refeição, correm de um lado para o outro, tomam uns tapas no lombo e são acariciadas na cabeça. Assim como em toda a Índia, elas estão sempre na preferencial em qualquer avenida ou calçada, perambulando por onde bem entenderem e atrás da base nutricional de suas refeições: lixo. Houve até um caso onde, em frente a um Bhang Shop que distribui iogurtes com “ervas mágicas” legalmente (uma placa enorme faz questão de esclarecer isso), uma vaca corria eufórica de um lado a outro, balançando a cabeça e perseguindo tuc-tucs. Eu ouvi dizer que o Anthony Bourdain andou ficando alto por lá. Pelo bem da população e o fim das aspirações à “vaca louca” daquele animal, seria melhor eles verificarem onde estão jogando fora os copos usados

Jaisalmer fica no extremo oeste do Rajastão, o chamado fim da linha. Dali para a frente não existe transporte público, apenas a imensidão nua e crua do Deserto de Thar que você pode desbravar montado num camelo. Vendidos em todo buraco na parede que possa ser chamado de agência, esses tour vão desde viagens ultra-turísticas no fim da tarde para o pôr do sol à trips mais hardcore de duas semanas ou mais.

Um jipe segue em frente por uma estrada aberta pelo exército em meio à desolação do deserto. Além de outros 4×4 recheados de turistas, fazendeiros e cabras compõe o cenário. A Cidade Dourada agora já ficava distante. Passaremos a noite entre as dunas, então trato de levar duas cervejas que, mesmo quentes, salvarão a noite. Mal sabia que no pitstop para pegar os camelos eles ofereceriam Kingfisher, pelo dobro do preço, mas gelada.

A primeira parada é uma cidade abandonada. Como acontece muitas vezes na Índia, uma vez que eles colocam o seu dinheiro no bolso os sorrisos e a atenção diminuem. Existe uma longa história envolvendo o vilarejo de Kuldhara, seu abandono e uma maldição local. Mas graças a boa vontade do guia, eu só fiquei sabendo muito tempo depois.

Kuldhara está desolada e um silêncio estranho prevalece ao seu redor. Esta aldeia foi abandonada por seu povo há 200 anos. Em uma era de poderosos reis e ministros, um deles em especial tinha métodos questionáveis de cobrança de impostos e abusava da sua depravação. Ele pôs os olhos justamente na filha do chefe da aldeia e, numa afronta impensável para a época, o pai da moça se negou a entregá-la. Temendo a ira do marajá os moradores de toda a aldeia fugiram em uma noite escura, deixando para trás suas casas e tudo o que havia dentro delas. Ninguém viu os mil membros da aldeia escaparem e nunca se soube aonde eles se reassentaram. Tudo o que se sabe é que eles amaldiçoaram a cidade quando saíram. Ninguém jamais seria capaz de se estabelecer em Kuldhara novamente, e até hoje ela é assim: estéril e desabitada.

Empoeirado até a alma e sob o sol do deserto, eu havia chego àquela região remota sentado no lombo de um camelo. Desconfortável e desconfiando do sorriso amarelado do guia – que insistia em dizer que estava tudo bem enquanto meu camelo dava claros sinais de descontentamento -, não é tão glamoroso quanto aparenta em “Lawrence da Arábia”.

Daqui, rumando para oeste, está a sensível e problemática fronteira com o Paquistão. São cinquenta, oitenta ou cento e cinquenta quilômetros de distância; depende do grau de percepção do seu informante.

Aqui a Índia perde a fervorosidade e a sensação de que um bilhão de pessoas estão querendo negociar com você. Buzinas são substituídas por sinos pendurados nos pescoços de nossos meios de transporte. Pela manhã, depois de passarem a noite livres perambulando pelas dunas, as badaladas serão único auxílio para encontrá-los e nos carregar de volta pra casa.

O caminho é ladeado à distância por aldeias de casas de palha e barro, escondidas na paisagem. Vizinhos parecem dispensáveis. No nosso caminho apenas alguns pastores de cabras, camelos selvagens, cobras potencialmente perigosas e uma vegetação árida dão vida ao lugar. Durante a noite, escaravelhos irão se juntar a nós para o jantar.

Acostumados a ver o deserto somente em fotografias, eu imaginava tratar-se de um lugar praticamente desabitado. Ledo engano. Na verdade o Thar é povoado por aldeias, pastores nômades levando carneiros de um lugar para outro, arbustos, salteadores, criadores de camelos e vários desocupados.

Como uma pequena embarcação no cavado entre ondas grandes, nos escondíamos em meio às dunas. Depois de poucas horas sacolejando, o ponto de parada final é nosso acampamento. Dali, subindo outra pequena duna, assistimos àquele que talvez tenha sido o único pôr do sol em que realmente vimos a bola de fogo desaparecer no horizonte. Em outras cidades, a poluição era tão extrema que o sol desapareceu muito antes da linha do horizonte e em tons esmaecidos. Jogos de luz e sombra sobre a areia âmbar, imagens fantasmagóricas e o amarelo ia perdendo força a cada gole de chai. Um fim de tarde antes visto somente através da televisão.

Nós viemos atrás da promessa aliciante de dormir ao relento e ver as estrelas. E enquanto a fogueira ardia, vagarosamente elas apareciam, uma a uma. Vênus, como de praxe, fora a primeira luz. Pouco tempo restou até que elas estivessem por todos os lados, em 360º, mais nítidas do que nunca. Um oásis de céu iluminado.

Não me recordo de outro momento em que a luz das estrelas e da lua – que tardou e apareceu no meio da madrugada – tenha sido suficiente para fugir à cegueira. Nem cogitei a câmera. Seria uma tentativa frustrante registar tal cenário. Há momentos que não precisam de ser gravados, basta existirem na memória. Em alguns lugares do mundo, coisas normais tornam-se mais intensas, inexplicavelmente. E há algum tempo, descobri essa sensação como uma droga. Vagar por lugares inóspitos, em situações desconfortáveis, atrás de coisas simples em perspectivas diferentes.

Deitados em colchões sobre uma duna e sob as estrelas, estávamos mergulhados numa civilização sustentada por camelos e areia desde eras distantes. Uma cultura que em breve se dissolverá no tempo, lembrada como um tesouro do passado histórico do sul da Ásia. Jaisalmer é distante, mas longe de ser intocada. Novas estradas para os veículos militares, tanto indianos como paquistaneses, empurram cada vez mais as fronteiras dos povos do deserto para terrenos incapazes de manter vivas suas tradições mais prezadas. Migrações lendárias são substituídas por passeios para turistas atrás dos melhores ângulos fotográficos.

Buscando as aventuras descritas e vivenciadas em nossas imaginações, somos parte do processo que causa essa transformação. Uma triste constatação. Novamente, somos culpados.  Mas nesse caso, não me importo de ser antes eu do que você.

Jaisalmer, Rajastão. Fevereiro de 2016